Com motor novo, Uno 1.3 tenta bater Gol 1.6

RODRIGO RIBEIRO
Da Motorpress, em São Paulo (SP)
23/12/2016 12:00
FIAT UNO SPORTING 1.3 X VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
FIAT UNO SPORTING 1.3
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6
VOLKSWAGEN GOL COMFORTLINE 1.6

Um eventual viajante do tempo que viesse de 2010 certamente enlouqueceria ao chegar ao Brasil hoje. E nem vamos falar de política, pois só o mercado automotivo nacional já seria o suficiente para criar um nó na cabeça do viajante. Especialmente se ele for fã do Volkswagen Gol e do Fiat Uno.

Há seis anos o compacto produzido em Minas Gerais ganhou a sua segunda geração, com desenho moderno inspirado em celulares e recursos inéditos para o modelo. Tinha até airbag duplo e ABS opcionais, itens que, inclusive, foram responsáveis pelo fim do Uno original.

A meta da Fiat era superar o Gol, líder incontestável do mercado, cuja quinta geração (de acordo com os critérios da fabricante), de 2008, ainda estava “fresquinha” em um mercado repleto de veteranos. Chevrolet Celta, Astra, Corsa e Volkswagen Polo ainda eram fabricados, lembra?

Linha 2017 do Uno ganhou grade nova

Com uma paleta de cores chamativas e uma campanha publicitária ousada, o novo Uno cresceu nas vendas e chegou até a superar o Gol na liderança do mercado no ano seguinte.

Agora vamos acelerar até 2016. Aqui, ABS e airbag duplo não são atrativos, e sim itens obrigatórios. Mesmo caminho seguirá o ESC, mas esse é o menor dos problemas para as fabricantes. Pressionadas pelo Inovar-Auto, que concede incentivos a quem investe em reduzir consumo, as marcas “popularizaram” o que antes era luxo. Que o diga o Uno com controle de estabilidade.

Versão Sporting 1.3 manual parte de R$ 49.340

Tudo bem que o equipamento é um opcional embutido em um pacote de R$ 3.700 na versão Sporting. Mas a antecipação da Fiat é louvável, ainda mais diante do novo Gol, que perdeu o recurso. O hatch até teve o ESC como opcional em sua versão Rallye, que também tinha o moderno motor EA211 1.6 de 120 cv. Com a saída do modelo no catálogo, o Gol também perdeu o propulsor atualizado e o câmbio de seis marchas. Essa profusão de novidades, porém, não ajudou muito, já que nenhum dos dois é líder.

Na realidade, hoje a dupla de ex-líderes está distante do topo do ranking de vendas. Concorrentes novos e quedas históricas fizeram com que VW Gol e Fiat Uno perdessem mais de 10% de participação no mercado.

Motor 1.3 de 109 cv e 14,2 kgfm de torque é grande trunfo do Uno
 E, para recuperar, nada melhor do que mexer no coração de um automóvel. Por isso, a Fiat finalmente lançou um novo motor para os seus populares. Afinal, só paixão não basta para movimentar um automóvel.

VAGALUME EFICIENTE
Se todas as versões dos motores Firefly fossem equipadas com Start-Stop, a homenagem à família de insetos faria sentido. Contudo, só o Uno 1.3 liga e desliga para poupar combustível. Para reduzir perdas energéticas e custos de produção, a Fiat também manteve as duas válvulas por cilindro e abriu mão do turbo.

Mesmo não sendo uma vitrine de tecnologia, o 1.3 Firefly não decepciona. São 14,2 mkgf e 109 cv com etanol. Ou seja, você viveu para ver um Uno 1.3 ser mais potente que um Gol 1.6. Só que a Volkswagen também investiu.

Interior do Uno continua com qualidade razoável de acabamento

Já que o motor é o mesmo do Polo 2002, o negócio foi apostar na conectividade do Gol. Desde a versão Comfortline há sistema multimídia com leitor MP3 e SD Card, e o Discovery Media, com sua generosa tela LCD de 6,3” e sensor de aproximação, passou a ser oferecido no Gol. Isso sem falar no suporte de celular.

Graças à engenharia alemã, a peça exibe design moderno e é embutida no painel, com direito a entrada USB exclusiva. Só que ele é opcional e custa R$ 319.
Essa é outra diferença da realidade de 2016. Vivemos em um momento que ninguém fará piada quando você disser que pagou R$ 50.000 em um hatch pequeno. O que podem perguntar é porque você está na dúvida entre um Gol 1.6 Comfortline e um Uno 1.3 Sporting.

Bem, a dupla de ex-campeões acumula mais tempo de mercado do que o Chevrolet Onix e o Hyundai HB20, atuais preferidos em vendas. Para o consumidor, isso pode significar maior segurança no pós-venda e liquidez.

Para quem busca um hatch acima de 1,0 litro, a Fiat oferece somente duas versões do Uno 1.3: a Way, que parte de R$ 47.640, e a Sporting, de R$ 49.340. Esta última foi a escolhida para duelar com o VW Gol 1.6 Comfortline, de R$ 51.130. Ambas as versões possuem câmbio manual de cinco marchas. 

Volkswagen Gol Comfortline 1.6 parte de R$ 51.130

ESPORTIVOS, PERO NO MUCHO
Apesar da pequena diferença de preço, a Fiat passou a adotar uma linha diferente com o Uno 1.3. Agora, o modelo não possui uma versão “civil”, como tinha o 1.4. Ou você pega um aventureiro ou um esportivo.

E, no caso do Sporting, nem dá para falar que a esportiividade está apenas nas maçanetas vermelhas, nos para-choques e nas rodas exclusivos. Além do escapamento com ponteira central, o Uno 1.3 Sporting tem a suspensão levemente mais firme. Não é nenhum Abarth, mas já ajuda a amenizar a maciez típica dos Fiat.

Unidade avaliada, no entanto, custa R$ 62.892

O Gol 1.6, por outro lado, não tem nenhuma alteração mecânica digna de nota – o que, nesse caso, não é ruim. Ainda que seu motor 1.6 de 104 cv seja conhecido há tempos, ele continua com um trem de força agradável e acerto dinâmico acima da média para o segmento. Mas, antes de falarmos como andam, vale ressaltar o que a dupla oferece a seus passageiros.

Coisa rara em 2010, agora ter direção assistida e ar-condicionado de série virou regra. Ambos também entregam faróis de neblina, vidros dianteiros e travas elétricas e rádio com entrada USB (mas sem conexão Bluetooth no Uno).

O Fiat se diferencia com rodas de liga leve de 15”, direção com assistência elétrica e pré-aquecimento de etanol. No lado alemão há rádio com mais recursos e entrada para cartão de memória e tampa do porta-malas com abertura elétrica.

Motor 1.6 rende 104 cv e 15,6 kgfm

Infelizmente, os anos de evolução ainda não se refletem em carros completos de verdade. A Fiat cobra por retrovisores elétricos, chave canivete e até cinto traseiro de três pontos para o terceiro ocupante. Bem, ao menos o Uno oferece esse item de segurança como opcional, pois no Gol ele é inexistente. Entre outros itens, a VW disponibiliza à parte luzes de leitura adicionais, rodas de liga leve e o já citado sistema Discover Media. Completo, o Gol 1.6 Comfortline custa R$ 57.607, enquanto o Uno 1.3 Sporting sai por R$ 53.930.

INOVAÇÃO NA MARRA
O Start-Stop estreou no Uno na versão 1.4 Evolution no ano passado, mas é agora que o sistema vai se popularizar, pois passou a ser de série em todas as versões 1.3, incluindo as Dualogic.

A novidade ainda não entrega a suavidade encontrada em um Golf, porém. Em algumas situações, como quando o carro está quase parando e retoma a marcha em seguida, o motor “se perde”. Mas o ganho em eficiência supera as pequenas deficiências. Em nosso ciclo urbano o Uno registrou 9 km/litro com etanol, índice que bateu de longe os 7,2 km/litro do Gol. O motor Firefly também superou o EA111 na estrada, com 12,8 km/litro, enquanto o VW chegou a 11,9 km/litro.

Interior do novo Gol ficou notavelmente mais refinado

O pacote de melhorias do Uno é reflexo do Inovar-Auto, que premiará com redução no IPI fabricantes que reduzirem a média de consumo de seus modelos. Por isso, o foco foi onde o carro perde mais energia – e, no caso do Uno, isso não incluiu o câmbio, infelizmente.

A caixa de marchas longas do Uno está longe de ser agradável, mas o contraste aumenta diante da ótima MQ200 do Gol. Do ponto de vista do motorista, esse é um dos principais pontos fracos do Fiat, especialmente após a notável evolução que ele recebeu com o Firefly.

Esqueça o preguiçoso 1.4, que exigia sempre rotações mais elevadas para entregar o seu desempenho. Agora, o Uno está agradável de dirigir e empolga em quase todas as faixas de rotação.

Difícil de acreditar? Bem, em nossos testes, o Uno bateu ou se equiparou ao Gol em quase todas as provas de desempenho, incluindo aceleração. Tudo bem que a diferença de 0s03 é um empate técnico, mas já ajuda a puxar uma calorosa conversa em mesa de bar.

Isso se soma ao projeto mais novo (ou, nesse duelo, “menos velho”), uma ligeira vantagem nos itens de série e maior oferta de opcionais, incluindo itens exclusivos. Então, afinal de contas, porque o Uno perdeu este comparativo?

Bem, primeiro vamos destacar a diferença ínfima que levou à vitória do Gol: apenas meio ponto. E não dá para cravar onde o VW consolidou sua vitória ou onde o Uno fracassou. Ambos tiveram destaques pontuais, mas o que garantiu o primeiro lugar ao Gol foi sua constância. Mesmo com um motor antigo, o hatch feito em Taubaté ainda carrega virtudes suficientes para superar o Uno.

É DISSO QUE O POVO GOSTA
Veja, por exemplo, o acabamento. Ambos utilizam muito plástico na cabine, mas a última atualização do Gol deu ao interior um ar mais refinado. A superfície é rígida por toda a extensão do painel, mas truques de textura e emendas dão a impressão que a peça é mais requintada.

Saídas de ar retangulares com fechamento embutido pelas aletas do difusor aumentam a sensação de qualidade, assim como os comandos macios do ar-condicionado e o volante com base achatada. O Uno até fez sua lição de casa, com superfícies emborrachadas, melhora na ergonomia e adoção de forrações escuras.
O lado negativo dos tons escuros é a redução na sensação de espaço, que já não é lá essas coisas. O Uno é inferior ao Gol em quase todas as medidas internas, ainda que ambos levem com conforto apenas quatro adultos (com algum aperto no banco traseiro).

O isolamento acústico do Fiat também não é tão bom quanto o do VW, algo que fica ainda mais claro a cada partida do motor no semáforo. Ambos oferecem sensor de ré opcionalmente, mas o Fiat é mais prático nas manobras. Sua assistência elétrica da direção é mais eficaz que a do Gol, e o modo City aumenta, ao toque de um botão, a assistência – mas o motorista perde um pouco a sensibilidade do volante.

A evolução do Uno é grande, mas não acompanhou todas as exigências do consumidor ao longo destes seis anos. Hoje em dia não faz mais sentido um modelo que não é mais popular ter abertura do porta-malas apenas pelo miolo da fechadura ou alavanca no assoalho. E já passamos da época em que um porta-malas tinha que ter a forração deformada por causa do estepe integral.

Dados de fábrica dos dois modelos

E isso vale também para a Volkswagen, que mantém o arcaico controle dos vidros elétricos traseiros no painel e na completa ausência do cinto de três pontos para o quinto ocupante. Sem falar no retrocesso de tirar um trem de força moderno com direito a ESC do catálogo do Gol.

A Volkswagen levou esse duelo de veteranos por sair de uma base naturalmente boa e ter tido menos pontos fracos a sanar na última atualização do Gol. A evolução do Uno, porém, foi maior e o aproxima do rival com itens ausentes até dos líderes de vendas. A dupla ainda se encontra distante do topo, mas está na trilha certa para voltar aos tempos áureos. 

Medições realizadas na pista da ZF-TRW, em Limeira (SP)

EVOLUÇÃO MOSTRA O IMPACTO DA CONCORRÊNCIA 
Quem diria que Chevrolet, Hyundai e até a Ford fossem dar tanto trabalho para os ex-líderes do mercado nacional. A dupla que antes surpreendeu agora precisa batalhar para não ser só mais um em meio ao mar de novidades. Finalmente a Fiat começou a trocar seus motores Fire e provou que seu 1.3 8V Firefly em nada deve para os rivais multiválvulas. A iniciativa de ofertar o ESC é admirável, mas ele poderia ser item de série – algo que mudaria o resultado desse comparativo. Do jeito que está, a evolução do Uno chegou perto, mas não foi o suficiente para superar o Gol. A boa notícia é que a dupla é bem diferente dos pioneiros de 2008 e 2010, ainda que haja muito espaço para que eles possam retomar o topo do ranking de vendas.